2# ENTREVISTA 29.1.14

CLSIO ANDRADE - "O SETOR DE TRANSPORTES EST CERCADO DE EQUVOCOS"
Presidente da Confederao Nacional do Transporte, o senador mineiro diz que falta de investimento e m gesto so obstculos para o desenvolvimento do Pas e que a soluo para a mobilidade urbana  dar prioridade ao metr 
por Alan Rodrigues 

FALTA DINHEIRO - Para o presidente da CNT, o Pas deveria investir R$ 1 trilho em infraestrutura de transportes

Dez em cada dez empresrios brasileiros so categricos ao afirmar que um dos principais entraves para o crescimento econmico do Pas  a falta de investimentos em infraestrutura na rea de transportes. O presidente da Confederao Nacional do Transporte (CNT), Clsio Andrade, faz coro. No h caminho alternativo ou atalho. Para que o PIB cresa a taxas significativas, h necessidade de investimentos em infraestrutura de transportes , diz o senador eleito pelo PMDB de Minas Gerais. Segundo ele, os empresrios reclamam que os investimentos anunciados pelo governo federal so parcos diante da demanda.  preciso investir quase R$ 1 trilho no setor. Nos ltimos dez anos, autorizou-se gastar R$ 155 bilhes e o governo s conseguiu realizar R$ 93 bilhes. Na entrevista concedida  ISTO, o senador reclama ainda do problema da mobilidade urbana no Pas e da burocracia que existe no sistema porturio brasileiro. Tem que simplificar a entrada e sada de cargas internacionais. Atualmente, precisa-se preencher cerca de 50 documentos.  como se fossem pases diferentes. Isso  um terror.

"A situao dos portos est caminhando para a soluo depois das privatizaes. Entre cinco e dez anos resolveremos a questo 

Privilegiando corredores, os passageiros de nibus vo levar vantagens, mas para quem anda de carro os congestionamentos vo se agravar"

Isto - Qual  o maior problema do setor de transporte no Brasil? 

Clsio Andrade - So trs os maiores problemas que afetam o setor no Pas: baixo investimento, burocracia e falta de uma viso sistmica da rea. O maior, sem dvida,  o baixo aporte de recursos para o investimento. Os valores teoricamente destinados ao setor so pura fico, porque no so suficientes para realizar o mnimo necessrio. Existe uma discrepncia de valores entre os recursos necessrios e os que so gastos.  preciso investir quase R$ 1 trilho no setor. Nos ltimos dez anos, autorizou-se gastar R$ 155 bilhes e o governo s conseguiu realizar R$ 93 bilhes. Isso  nada diante da demanda. 

Isto - Ento, o problema no  to somente a falta de dinheiro e tambm saber gastar? 

Clsio Andrade - A falta de dinheiro  um problema grave, mas tambm vivemos uma deficincia gerencial absurda. Faltam bons projetos, h dificuldades ambientais que retardam a execuo das obras e, acima de tudo, existem problemas ideolgicos para aceitar a iniciativa privada como parceira. Perde-se muito tempo com esses debates. A infraestrutura precria de nosso pas afeta toda a sociedade. 

Isto - A presidenta Dilma Rousseff elegeu-se como a gerente eficiente do governo Lula. Como o sr. analisa a atuao dela hoje? 

Clsio Andrade - A presidenta Dilma era uma eficiente gerente de projetos do governo Lula. Ela  muito boa em projetos especficos. Pega um e resolve. Mas o Brasil no  s isso. So milhares de projetos que uma pessoa s no d conta de resolver. A presidenta Dilma tem que aprender a delegar mais e rever sua forma de gerenciar. Ela tem que aprender a descentralizar a tomada de decises e aproveitar mais a parceria da iniciativa privada, principalmente na rea dos transportes. 

Isto - Qual  o balano que o sr. faz da rea de transportes do governo federal at o momento? 

Clsio Andrade - O Brasil perdeu nos ltimos 20 anos a viso sistmica dos transportes. Criou-se uma srie de rgos que no falam um com o outro. Com isso, perdem-se a integrao dos modais mais eficientes e bons projetos. Ningum conversa com ningum.  

Isto - O toma l d c de cargos e o fatiamento poltico do governo atrapalham a administrao? 

Clsio Andrade - No  isso. Os poderes so harmnicos e interagem. O mundo inteiro  assim. O Brasil  um governo de coalizo em funo da quantidade de partidos existentes. A questo  do comando central,  a forma de comandar. A presidenta precisa descentralizar mais o governo e acabar de vez com a resistncia em no querer administrar o Pas ao lado dos empresrios. Existe uma colaborao de ambas as partes.  

Isto - Os esforos feitos pelo governo federal nos ltimos anos, como a criao do PAC, ainda no foram suficientes para garantir a melhora da infraestrutura. Quais so os principais gargalos? 

Clsio Andrade - Existem gargalos em todos os modais dos transportes. As pesquisas mostram que nossa malha rodoviria chega a ser 70% deficiente. A situao do sistema rodovirio  muito crtica, j que o Brasil ainda  muito rodoviarista. Mais de 60% do transporte do Pas  feito por rodovias e mais de 80% das pessoas so transportadas tambm por elas. O ideal  que 40% sejam transportes em rodovias, 40% em ferrovias, 10% em hidrovias e o restante, transporte areo.

Isto - Quais so as medidas que podem ser adotadas para reverter esse quadro? 

Clsio Andrade - O setor de transportes est cercado de indecises, equvocos, lentido, excesso de burocracia e falta de gesto adequada. Esses so alguns dos elementos indesejveis ao progresso de uma nao. Precisamos duplicar pelo menos mais 12 mil quilmetros de rodovias federais, que so os eixos. Mas o governo federal est conseguindo muito pouco. O projeto de privatizao das estradas no foi bem. Vo conseguir executar pouco mais de trs mil quilmetros. 

Isto - As parcerias pblico-privadas na construo de rodovias no deram certo? 

Clsio Andrade - As privatizaes que este governo fez em estradas esto longe de resolver as questes rodovirias. So dificuldades gerenciais graves. O governo precisa caminhar mais fortemente junto com a iniciativa privada. 

Isto - Qual  a situao dos transportes martimos e dos portos no Brasil? 

Clsio Andrade - A situao dos portos est caminhando para a soluo depois das privatizaes. Com a nova legislao, o governo est autorizando o funcionamento de novos portos privados e eles podero competir no mercado, o que no podia nas ltimas dcadas. Porto voc praticamente resolve tudo com a iniciativa privada. Achamos que entre cinco e dez anos resolveremos a questo porturia no Brasil, em termos de investimento. Mas no transporte de passageiros e de cargas no usamos quase nada do nosso potencial. Hoje, 1% do transporte de passageiros e 3% do de cargas so feitos pelos rios, quando na verdade deveramos operar na faixa de 10%. 

Isto - Por que se reclama tanto da questo dos portos? 

Clsio Andrade - O governo agora acertou na soluo, que  o envolvimento da iniciativa privada no setor. Mas ainda faltam investimentos em tecnologia avanada e logstica. Nosso sistema porturio  muito atrasado. Os guindastes utilizados so muito velhos e os equipamentos so muito sucateados. Temos um desafio muito grande tambm, que  acabar com a burocracia excessiva e a quantidade de taxas que tem de se pagar e rgos envolvidos. Ou seja, tem que simplificar a entrada e sada de cargas internacionais. Atualmente, precisa-se preencher cerca de 50 documentos.  como se fossem pases diferentes. Isso  um terror. 

Isto - E a questo da logstica? 

Clsio Andrade -  um problema anterior  chegada dos produtos aos portos que ainda no foi resolvido. Todos os anos a gente v quilmetros de fila de caminhes para descarregar os gros nos portos, isso  uma questo de infraestrutura. Temos que ter silos para armazenagem dos gros ao longo das rodovias. Se tivermos depsitos de armazenamento, o empresrio pode soltar os produtos aos poucos. A soluo sempre cai na falta de uma viso sistmica. No precisam existir trs agncias de regulao para tratar do setor de transporte e mais 12 rgos.  

Isto - Na tributao do setor de transportes, o governo atendeu s demandas dos empresrios? 

Clsio Andrade - Tivemos um grande avano com a desonerao da folha de pagamentos, que reduziu substancialmente os custos dos encargos sociais. Agora s falta unificar os impostos na rea de cargas, j que se pagam diversos impostos em diferentes Estados. 

Isto - A Copa est chegando. De que maneira o sr. analisa a questo da mobilidade urbana no Brasil? O que pode ficar como legado da competio no Pas? 

Clsio Andrade - O Pas esqueceu-se da mobilidade urbana nas ltimas duas dcadas. Acordou h dois anos e est investindo mais de R$ 100 bilhes. O problema central  que o nibus tradicional no  transporte de massa e ele sempre cumpriu esse papel. Precisa-se investir em BRts, metr, ou seja, transportes rpidos sobre trilhos. Estamos muito aqum da necessidade do Pas. 

Isto - Uma das maiores crticas que o prefeito de So Paulo, Fernando Haddad, vem recebendo  de que ele criou faixas exclusivas de nibus e os engarrafamentos pioraram.  possvel harmonizar a convivncia de todos os meios de transporte, como carros, transportes pblicos e de cargas no Brasil?  

Clsio Andrade - A curtssimo prazo o cenrio  complicado. Do jeito que est sendo feito no Brasil, privilegiando corredores, os passageiros de nibus vo levar vantagens, mas para quem anda de carro os congestionamentos vo se agravar. Quando se fala em mobilidade urbana, tem que se considerar o automvel, o estacionamento desses veculos e o metr que o passageiro vai buscar. No existe mgica, tem que se priorizar o transporte sobre trilhos. 

Isto - Mas, em geral, obras no metr demoram muito. A curto prazo, qual  a soluo? 

Clsio Andrade - Investir em veculos leves sobre trilhos (VLTs). A situao mais grave  que o Pas aumentou muito a produo de veculos automotores. O lado bom  que as pessoas mudaram o padro de vida, mas as cidades pararam. O governo federal acordou h dois anos para os problemas da mobilidade urbana. Ele acreditava que esse era um problema dos municpios, que no tm capacidade para investir nessa rea. 

Isto - O sr.  candidato ao governo de Minas?  

Clsio Andrade - A proposta do PMDB  ter candidatura prpria. Eu coloquei meu nome para disputa. Um eventual acordo com o PT no primeiro turno  complicado, j que 70% do partido quer ter candidato.

